Existem pessoas que passam pela vida apenas vivendo. Outras, porém, deixam marcas tão profundas que acabam se confundindo com a própria história de uma cidade. Assim foi Serafim Rocha, um homem simples, trabalhador, sábio e dedicado, que ajudou a construir, com as próprias mãos, parte importante da identidade de Várzea-PB.
Dando continuidade ao projeto “100 anos, 100 histórias de Várzea-PB”, idealizado pelo Blog Jefte News, hoje contamos a emocionante trajetória de um homem que, mesmo com pouco estudo, possuía uma inteligência admirável, uma enorme disposição para o trabalho e um amor incondicional por sua terra.
Nascido em 30 de agosto de 1912, Serafim Rocha construiu sua vida ao lado de Maria Dinalva de Medeiros Rocha, conhecida carinhosamente como Bela. Pai de 14 filhos, dedicou toda sua existência à família, ao trabalho e ao desenvolvimento de Várzea, cidade onde viveu praticamente toda sua vida.
Serafim era daqueles homens que aprendiam com a vida. Mesmo sem grandes oportunidades de estudo, possuía conhecimento e habilidades que impressionavam todos ao seu redor. Trabalhador incansável, atuou em diversas áreas e sempre era procurado pela sua competência, responsabilidade e honestidade.
Na agricultura e pecuária, trabalhou no Sítio Veneza, localizado na comunidade Pedra d’Água, produzindo agricultura de subsistência e contribuindo diretamente para o sustento de muitas famílias. Do plantio à colheita, sua dedicação era reconhecida por todos que conviviam com ele.
Mas sua trajetória não parou no campo. Serafim também participou de importantes atividades ligadas à mineração na região, trabalhando na exploração da barita, da xelita e em minas como a do Porcão e Quixaba. Em um período em que essas atividades movimentavam a economia local, ele ajudou diretamente no crescimento financeiro do município, contribuindo para uma fase importante da história econômica da região.
Sua inteligência e desenvoltura também o levaram ao serviço público. Adepto da boa leitura e reconhecido pela capacidade de escrita, foi convidado para assumir o cargo de escrivão de polícia durante o governo de Pedro Godim, exercendo a função na delegacia local até sua aposentadoria.
Além disso, Serafim também dominava a profissão de carpinteiro. Produzia malas de sola bastante conhecidas e respeitadas em toda a região do Vale do Sabugi e até em cidades do Rio Grande do Norte. Seu talento manual era admirado, e suas peças carregavam o selo da dedicação e da qualidade.
Uma das histórias mais curiosas e marcantes de sua vida revela muito sobre os tempos antigos e sobre o espírito comunitário daquela época. A pedido de lideranças da cidade, Serafim confeccionou um caixão comunitário que era utilizado para transportar os falecidos até o cemitério. Após o sepultamento, o caixão retornava ao depósito para servir novamente quando necessário. Um gesto simples, mas que demonstra o quanto ele estava disposto a servir a população em todos os momentos, inclusive nos mais difíceis.
Serafim Rocha também participou de obras importantes para a infraestrutura da região. Foi convidado para coordenar trabalhadores na construção da estrada que ligava a Paraíba ao distrito Palma, no Rio Grande do Norte, ajudando a abrir caminhos e facilitar o deslocamento entre as localidades em uma época de enormes dificuldades.
Homem sábio, contador de histórias, charadista e dono de uma personalidade alegre e brincalhona, Serafim conquistava as pessoas não apenas pelo trabalho, mas pela maneira humana e simples com que tratava todos ao seu redor.
No dia 24 de janeiro de 2004, Várzea se despediu de Serafim Rocha. Mas homens como ele nunca partem completamente. Permanecem vivos na memória da família, dos amigos, das histórias contadas nas calçadas, no exemplo de trabalho e na contribuição deixada para o crescimento do município.
Sua filha, Edilene, conhecida como Galega de Bela, resumiu com emoção parte dessa trajetória que encanta pela sabedoria, humildade e força de um homem que ajudou a escrever capítulos importantes da história varzeense.
Falar de Serafim Rocha é falar da própria essência de Várzea: um povo simples, trabalhador, resiliente e cheio de dignidade. Seu legado permanece vivo como inspiração para as novas gerações, mostrando que não é preciso riqueza para se tornar grande. Basta ter caráter, coragem, dedicação e amor pela terra onde se vive.
