O Construtor de Vidas: a história de Zé Mateus que atravessa gerações no centenário de Várzea

Dentro do projeto “100 anos, 100 histórias”, algumas trajetórias não apenas contam o passado — elas sustentam o presente e inspiram o futuro. A história de José Mateus, eternizado como “O Construtor”, é uma dessas narrativas raras, que revelam a grandeza de um homem simples, comum aos olhos do mundo, mas extraordinário em sua essência.

O título que o acompanha não é por acaso. “Construtor” é aquele que edifica, que cria, que transforma. E foi exatamente isso que Zé Mateus fez ao longo de sua vida: construiu casas, caminhos, oportunidades, valores e, acima de tudo, uma família sólida alicerçada na fé e no amor.

Natural de Ouro Branco, no Rio Grande do Norte, Zé Mateus nasceu em 21 de setembro de 1934, no sítio Triângulo, sendo o primogênito do casal Maria Teodora e Zé Ludgero. Herdou seu nome de santo, por ter vindo ao mundo no dia dedicado a São Mateus, refletindo desde cedo a forte religiosidade de seus pais, devotos e firmes na fé católica — fé essa que ele carregaria por toda a vida e transmitiria aos seus filhos.

Primeiro de 13 irmãos, conheceu desde cedo o peso da responsabilidade. Em meio às dificuldades do sertão nordestino, começou ainda criança a trabalhar na agricultura, cuidando da terra, dos animais e ajudando na criação dos irmãos. Enquanto isso, seu pai saía para exercer o ofício de pedreiro. Foi nesse contexto que Zé Mateus amadureceu rapidamente, desenvolvendo liderança, disciplina e um senso profundo de compromisso familiar.

Mais tarde, passou a acompanhar o pai nas obras, tornando-se aprendiz de pedreiro. Ali, entre prumos, alicerces e telhados, encontrou sua vocação. Aprendeu na prática a importância de uma base bem feita — lição que levaria não só para as construções físicas, mas também para a vida.

Versátil e determinado, também exerceu a profissão de barbeiro, iniciando nos próprios irmãos e, posteriormente, nas tradicionais feiras de domingo em Ouro Branco. Porém, foi como pedreiro que se destacou. Seu talento, capricho e responsabilidade o tornaram conhecido em toda a região do Sabugi, consolidando seu nome como construtor respeitado, responsável por erguer edificações de diferentes portes em áreas urbanas e rurais.

Na década de 1960, impulsionado por seu reconhecimento profissional, recebeu o convite para trabalhar na construção de Brasília. Partiu do sítio Esguicho, passou por Santa Luzia e enfrentou uma longa viagem de doze dias em pau de arara até chegar ao Planalto Central. Lá, integrou o grupo de nordestinos — os chamados candangos — que ajudaram a construir a capital federal.

Inicialmente atuou na confecção de asfalto e, posteriormente, no Plano Piloto, deixando sua marca em uma das maiores obras do país. Em cada concreto moldado, estavam também seus sonhos de uma vida melhor e o aperfeiçoamento de suas técnicas como construtor.

No entanto, a vida o chamou de volta. A notícia da morte de seu pai interrompeu seus planos em Brasília. Diante da dor e da responsabilidade, Zé Mateus tomou uma decisão que definiria sua trajetória: abandonou o auge das oportunidades para retornar ao sertão e assumir o papel de arrimo da família, cuidando da mãe e dos 12 irmãos.

De volta às suas origens, reafirmou sua missão de vida. Continuou trabalhando como pedreiro, construindo casas e ajudando outras famílias a terem segurança e dignidade. Mais do que levantar paredes, ele erguia sonhos.

Casou-se com sua prima legítima, Ericina Nóbrega, com quem viveu uma história de amor, companheirismo e parceria. Dessa união nasceram cinco filhos: Joselito, Joseildo, Josenildo, Josilene e Joácio. No lar, foi exemplo de esposo dedicado e pai presente, guiando a família com valores sólidos, sempre pautado no princípio de que “primeiro os seus”.

Mesmo com tantas responsabilidades, encontrou tempo para servir à comunidade também na vida pública. Foi vereador do município de Várzea por duas vezes, em uma época em que o cargo não era remunerado. Seu compromisso era genuinamente social, contribuindo de forma significativa para o desenvolvimento do município com trabalho e dedicação.

Dotado de inteligência prática e espírito inovador, Zé Mateus também se destacou como inventor. Criou um equipamento para o despalhamento de feijão, utilizado por agricultores da região, o que lhe rendeu ganhos por meio de royalties — algo pioneiro no contexto local. Além disso, desenvolveu as conhecidas carroças de mão adaptadas para o transporte de água em maior volume e com menos desperdício, facilitando o abastecimento doméstico e o trabalho nas obras.

Em 1995, enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida com o falecimento de sua esposa. Ficou responsável pelos filhos mais jovens, Josilene e Joácio, e, mesmo diante da dor, manteve-se firme, sustentado pela fé e pela responsabilidade. Com a ajuda dos filhos, seguiu conduzindo o lar com dignidade, sendo exemplo de força e resiliência.

Com o passar dos anos, a família cresceu e se renovou com a chegada dos netos: Mateus e Monise, filhos de Josenildo, e Júlia e Fernando, filhos de Joselito. A presença deles trouxe novos motivos para sorrir, reforçando os laços de amor que sempre foram a base de sua vida.

Após 45 anos de trabalho como pedreiro, aposentou-se, mas nunca deixou de ser construtor. Passou a dedicar-se à agricultura em seu sítio no Esguicho, à convivência com os amigos nas calçadas, às conversas simples das noites sertanejas, às viagens para visitar familiares no Norte do país e ao fortalecimento da fé na paróquia de São Francisco.

Homem de princípios, valores e conduta exemplar, Zé Mateus construiu mais do que edificações: construiu pontes humanas, cultivou amizades e guiou sua vida com honra, respeito e lealdade. Sua visão sempre esteve voltada para conduzir com sabedoria os próprios caminhos e os de sua família.

Varzeense de coração, deixou sua marca também na política local, sempre com ética e compromisso. Sua biografia é referência de decência, dedicação e honestidade — um verdadeiro retrato do homem trabalhador do sertão nordestino.

Zé Mateus faleceu em 14 de julho de 2021, partindo para a glória do Senhor. Sua ausência deixou saudade, mas seu legado permanece vivo. Ele segue presente em cada casa que ajudou a erguer, em cada ensinamento transmitido e em cada gesto de amor que plantou ao longo da vida.

Como bem traduz o saber popular sertanejo, “a história mais bonita é a da família”. E a história de Zé Mateus é, sem dúvida, uma das mais belas.

Construtor por profissão, por vocação e por essência, ele edificou o que há de mais importante: vidas, valores e amor. E por tudo isso, jamais será esquecido. Descanse em paz, Zé Mateus — o eterno construtor.