Ao celebrar seu centenário, Várzea não comemora apenas o tempo, mas sobretudo as histórias que deram sentido à sua existência. Entre essas memórias vivas, destaca-se a trajetória de Palmira de Medeiros Rocha Amaral, cuja vida se confunde com a própria construção social, educacional e cultural do município.
Convidada a participar desse momento ímpar, Palmira revisita sua caminhada com orgulho e emoção, compartilhando com seus conterrâneos parte do que ajudou a construir ao longo de sua vida. Nascida em 06 de junho de 1950, filha de Serafim Rocha e Maria Dinalva de Medeiros Rocha (Bela), veio ao mundo no Sítio Trapiá. Ainda bebê, mudou-se para a Mina do Poção, onde viveu até os seis anos de idade. Em 1956, seus pais passaram a morar no então distrito de Santa Luzia, hoje Várzea — terra que ela reconhece como seu berço, onde nasceu, cresceu e apareceu para a vida.
Logo no início de sua narrativa, Palmira faz questão de parabenizar sua querida Várzea pelos 100 anos de existência, reforçando o vínculo profundo com o lugar que moldou sua história. Ainda criança, viveu na comunidade Pedra D’Água, onde trabalhou na agricultura familiar, realidade comum no sertão. Apesar das dificuldades da época, teve a oportunidade de estudar no momento certo — algo que ela define como quase um milagre.
Movida por essa oportunidade, aos 15 anos já exercia a função de professora leiga na escola isolada de Pedra D’Água. Com muita vontade e uma paixão evidente pela educação, iniciou sua trajetória docente ensinando e aprendendo com crianças e jovens de diversas localidades próximas.
Determinada a seguir estudando, mudou-se para a cidade, onde, junto a colegas, buscou ampliar seus conhecimentos. Em Santa Luzia, deu continuidade aos estudos, o que contribuiu para aprimorar o que já sabia. Posteriormente, foi chamada para lecionar na Escola Odilon de Figueiredo, onde mais uma vez deu sua contribuição no ato de educar.
Durante sua adolescência, incentivada pelo Padre Jerônimo, teve a oportunidade de ser presidente da Cruzada ABC, uma importante organização formada por crianças e adolescentes. Nesse espaço, aprendeu valores cristãos fundamentais, especialmente o ato de ajudar, compartilhar e dividir — princípios que carregou por toda a vida.
Sempre ativa e disposta a contribuir, Palmira participou de uma dramatização com o objetivo de arrecadar recursos para dar início à construção do Clube Recreativo Varzeense, o único existente na época para as festividades da cidade. Ainda nesse período, trabalhou na Câmara de Vereadores como escriturária, sendo responsável por registrar e resumir tudo o que ocorria nas reuniões legislativas.
Em outro momento significativo, foi convidada pelo prefeito da época para coordenar o MOBRAL — projeto voltado à alfabetização de jovens e adultos que não tiveram acesso à educação no tempo adequado. Durante sua atuação, passou um longo período dedicada à iniciativa e, paralelamente, concluiu seu curso ginasial. Nesse mesmo ciclo da vida, casou-se e foi morar fora, mas nunca se afastou dos festejos sociais de sua amada Várzea.
Nos eventos tradicionais, como o João Pedro, Palmira recebia ornamentações em palha feitas por sua mãe e também contribuía com seu próprio trabalho artesanal, utilizando a famosa palha de carnaúba. Produzia chapéus, abanadores e bolsas, fortalecendo a identidade cultural local. Nas festas do padroeiro São Francisco, esteve sempre presente, integrando equipes que organizavam campanhas e arrecadações. Em diversas ocasiões, pediu donativos para a realização de leilões, lembrando com carinho de uma vez em que a renda foi destinada à compra de mais bancos para a igreja local.
Mesmo morando em outra cidade, seu compromisso com a educação continuou firme. Foi novamente convidada pelo prefeito para desenvolver um trabalho na área educacional, dessa vez como supervisora na Escola Sandoval. Ali, buscou somar e multiplicar saberes junto aos gestores, professores e demais profissionais. Segundo ela, foi um trabalho exitoso, marcado pela união de esforços.
Entre as ações realizadas, destaca-se a organização da primeira mostra cultural — ou feira de ciências — onde os protagonistas foram os alunos, não apenas da Escola Sandoval, mas também das zonas rurais, hoje chamadas de campo, e de outras modalidades de ensino existentes na cidade. O projeto contou ainda com a participação de entidades como o Logos, a EMATER e os Correios. Foi um grande planejamento coletivo que ajudou a traçar novos rumos para a educação local.
Nesse mesmo período, também esteve à frente da organização de um grande desfile em comemoração ao aniversário da cidade, reunindo todos os projetos educacionais e promovendo uma homenagem aos ancestrais que tanto contribuíram, de forma incansável, para que Várzea se destacasse em diversas áreas. Graças a esse legado, hoje o município celebra seu centenário com inúmeras histórias de sucesso, contadas por filhos que, assim como Palmira, transbordam alegria e paixão por essa terra querida.
Ainda atuando na Escola Sandoval, participou da construção do Projeto Político Pedagógico (PPP), deixando um importante embasamento para o desenvolvimento educacional mais atualizado, beneficiando todo o corpo docente e discente da instituição.
Ao encerrar seu relato, Palmira faz uma referência ao cinema brasileiro ao parafrasear “Ainda estou por aqui”, afirmando que continua disponível para ajudar dentro de sua área específica: a educação.
Datado de 04 de maio de 2026, seu depoimento é mais do que uma lembrança — é um testemunho vivo de dedicação, compromisso e amor por Várzea.
A história da professora Palmira é uma entre tantas que constroem a identidade de um povo. Mas é, sem dúvida, uma das que melhor representam o espírito de luta, solidariedade e transformação que marca esses 100 anos, 100 histórias de Várzea.
