Favorito na disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) usa a verba de gabinete para abastecer o carro em um posto de gasolina que doou dinheiro para a sua campanha em 2010. Só em 2011 e 2012, o posto Jacutinga, em Natal, recebeu R$ 50.548 da Câmara. Em 2010, um cheque de R$ 10 mil, emitido pela R. G. Barros Vasconcelos Bezerra, pessoa jurídica do estabelecimento, foi entregue à campanha de Alves.
O Jacutinga é praticamente o único posto usado por Alves para abastecer com dinheiro público. Em 2011, foram pagos R$ 35.951. O total repassado em 2012 foi menor, de R$ 14.597. O posto está registrado no nome de Rachel Gomes de Barros Vasconcelos Bezerra e da empresa H. R. Comercial Ltda, que pertence ao marido de Rachel, Haroldo de Sá Bezerra Filho.
Não foi nesse mandato que Henrique se tornou cliente do Jacutinga. Na legislação passada, o parlamentar já abastecia no estabelecimento da família Bezerra.
Ontem, funcionários do posto informaram o telefone de Haroldo como sendo o do dono. Ao tomar conhecimento do assunto da reportagem, Haroldo afirmou que não é o proprietário do posto e desligou. O empresário não atendeu às demais ligações.
O preço da gasolina normal no Jacutinga ontem era R$ 2,71 o litro. A aditivada estava em R$ 2,85 por litro. Considerando o segundo valor, num mês como fevereiro de 2011, em que o parlamentar gastou R$ 4.500 no posto, seria possível rodar 1.660 quilômetros, aproximadamente a distância entre Salvador a São Luís.
Por meio de sua assessoria, Alves não respondeu se conhece os donos do posto.
— Com relação às doações de campanha, peço que seja verificada a lisura, a legalidade de todas as prestações de conta junto ao TRE. Com relação ao uso de verba indenizatória, sugiro que seja verificada a legalidade e a correção de minhas contas nesses 42 anos de vida parlamentar — limitou-se.
Abastecer o carro em postos que são doadores na campanha eleitoral não é novidade no Congresso. O ex-senador Demóstenes Torres (sem partido), cassado em 2012, costumava encher o tanque no Posto T-10, em Goiânia. O estabelecimento doou para o ex-senador goiano ao mesmo tempo em que forneceu notas fiscais para reembolso do Congresso, totalizando R$ 381,5 mil em três anos.
Ontem, diante das denúncias de que Alves destinou emendas parlamentares a obras tocadas pela empresa de um funcionário de seu gabinete, que também é dirigente do partido no seu estado, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) decidiu apresentar um projeto para impedir legalmente a perpetuação desses casos.
— É o velho mecanismo clientelista, patrimonialista na prática das emendas parlamentares, e é tanto mais grave quando parte de um candidato a presidente da Câmara dos Deputados. Ele quer presidir um colegiado de 513 deputados, mas não consegue ter informações nem sobre o que se passa dentro do seu gabinete — ironizou Alencar.
Guilherme Amado-Jornal Extra