Atualmente, tem se tornado cada vez mais frequente propagandas que incentivam pais a guardar o sangue do cordão umbilical de seus filhos. Segundo Luis Fernando da Silva Bouzas, coordenador da Rede BRASILCORD de Bancos Públicos de Sangue de Cordão umbilical e Placentário – INCA, o grande problema é que essas ações partem de bancos privados que pregam que as células-tronco contidas nesse material poderão salvar a vida dessas crianças, caso elas desenvolvam alguma doença, na vida adulta. “Isso é apostar no futuro. Não há suporte institucional, e esse uso ainda não tem comprovação”, afirmou o médico durante conferência realizada na manhã de quinta (25), durante o 49º Congresso Científico do HUPE.
Segundo Luis Fernando, há 11 anos vem se tentando comprovar a eficácia de células-tronco na medicina regenerativa, entretanto, até hoje não houve resultados. “Caso uma criança apresente alguma doença no futuro, e se consiga dominar o uso de células-tronco na medicina regeneretiva, então, ao invés de usar células do sangue do cordão, poderemos retirar células da própria medula do paciente e injetar no local a ser regenerado”, afirmou.
Atualmente, as células-tronco têm eficácia cientificamente comprovada no tratamento de algumas doenças, como leucemias, falência da medula óssea, imunodeficiências, doenças oncológicas e autoimunes.
Nesses casos, pode-se usar tanto células-tronco provenientes da medula óssea quanto do cordão umbilical. Para um transplante, entretanto, segundo o médico, é necessário que haja compatibilidade HLA. “Há cerca de 30% de chances de um paciente encontrar um doador compatível em sua família. Setenta por cento precisam de um doador não aparentado”, afirmou.
Especialmente no Brasil, um país onde a miscigenação da população é muito grande, há uma maior dificuldade de encontrar indivíduos compatíveis, embora a situação venha melhorando. O médico afirmou que atualmente há 2.400.000 doadores cadastrados, porém a distância geográfica entre doador e paciente acaba dificultando o transplante. Nesse sentido, o sangue de cordão umbilical, segundo Luis Fernando, torna-se uma alternativa, pois por se armazenado, pode ser usado com maior rapidez e o uso é indicado quando há compatibilidade de 70%. No caso da medula óssea, a compatibilidade precisa ser de 100%.
É nesse contexto que surgem os bancos de sangue de cordão umbilical. Além desses bancos privados, existe um banco público, que tem como objetivo encontrar doadores não aparentados. Nesse caso, explicou Luis Fernando, há um alto índice de utilização imediata. Em um banco público, também há bancos para uso familiar, porém o armazenamento é feito quando a mãe já possui um filho com alguma doença.
O médico que esteve envolvido na criação do banco público, inaugurado em 2001, contou que em 2004 foi criada a Rede BRASILCORD. O projeto de criação, segundo ele, foi bem estudado e determinado, o que permitiu uma segurança que os bancos privados nem sempre têm. “Controlamos a qualidade do material, a temperatura de armazenamento e de transporte. No Rio de Janeiro, por exemplo, temos seis maternidades conveniadas. Nessas instituições, os profissionais de saúde foram treinados para realizar a coleta. Esse processo não interfere no parto. Também coletamos amostras de sangue materno, para assegurar a qualidade. Cada bolsa de sangue é transportada com um chip, que rastreia a temperatura durante o percurso. No laboratório, o processamento é realizado com código de barras e é automatizado. As bolsas são armazenadas em tanques de nitrogênio líquido também automatizados e podem permanecer por 20, 30 anos lá”, explicou.
Segundo o médico, o Conselho Federal de Medicina (CFM) está criando normas para impedir as propagandas que vêm sendo realizadas pelos bancos privados. “A nossa constituição diz que o sangue é público”, lembrou o médico.
Agência Notisa