A paralisação dos médicos do Hospital de Emergência e Trauma Senador Humberto Lucena fez sua primeira vítima fatal. Desde sexta-feira, 23 médicos-cirurgiões que prestam serviço no hospital cruzaram os braços e se recusaram a fazer atendimentos. No domingo, um rapaz de 25 anos morreu, após os médicos da unidade recusarem atendimento, em decorrência da greve da categoria.
Cristiano Alves Correia, 25, caiu de moto numa cratera aberta na rodovia estadual PE-75, próximo ao município de Itambé, em Pernambuco, teve fraturas e traumatismo craniano e sofreu por mais de duas horas até morrer, enquanto os médicos-cirurgiões no Trauma sequer abriam as ambulâncias para ver o estado de saúde dos pacientes que chegavam na unidade. O Conselho Regional de Medicina (CRM) anunciou que já instaurou uma sindicância para apurar a denúncia e os médicos que recusaram o atendimento podem ter o registro profissional cassado por negligência médica.
![]() Pacientes que chegam ao hospital são encaminhados para outra unidade. Foto: Fabyana Mota/ON/D.A Press |
Foram duas horas de desespero e correria.De acordo com o irmão de Cristiano, Clodomir Dionísio Correia, o rapaz sofreu um acidente por volta das 7h40 e foi trazido imediatamente de Itambé para o Hospital de Emergência e Trauma, em João Pessoa, mas a ambulância com o paciente sequer chegou ao pátio na entrada do hospital. "Na guarita que dá acesso ao Trauma havia cones e correntes barrando a entrada. O funcionário informou que meu irmão tinha que ser levado para o Ortotrauma,, porque os médicos do hospital estavam em greve. Cristiano foi levado para Mangabeira, mas, como se fosse uma bola para o gol, mandado de volta para o Trauma. No caminho, ele não aguentou mais e acabou morrendo, sem nenhum atendimento, como se fosse um ninguém", desabafou o irmão.
A família de Cristiano está inconformada com a recusa dos médicos, que apesar da greve, deveriam garantir em pelo menos 30% o atendimento a pacientes em casos de urgência. Os familiares garantem que vão acionar a justiça para punir os profissionais que eles julgam responsáveis pela morte do paciente. "Os médicos fizeram um juramento de que não deixariam um paciente perder a vida sem que antes tentassem salvá-lo, mas nenhum médico sequer abriu a porta da ambulância para ver como meu irmão estava. Será que o dinheiro vale mais que uma vida? Vamos processar o secretário de Estado da Saúde, governador, seja quem for. O que não pode é um médico, um hospital conceituado como o Trauma, negar atendimento a um paciente", informou Clodomir.
No pescoço de Genetânia Medeiros da Silva, 25, ficou pendurada a lembrança do noivo que morreu sem conseguir se despedir. A aliança simboliza o relacionamento de cinco anos, que foi interrompido sem escolha de nenhum dos dois. "Eu não tenho mais nem lágrimas para chorar. Cristiano tava trabalhando há dois meses e esperava apenas assinar a carteira como frentista num posto de gasolina para comprar uma moto e começar a organizar as coisas para o nosso casamento", disse. "Eu não sei como um médico pode recusar atender um paciente e conseguir deitar a cabeça no travesseiro e dormir ànoite".
A direção do Hospital de Emergência e Trauma adiantou que vai abrir uma sindicância para apurar as responsabilidades sobre a morte de Cristiano Alves Correia. "O Trauma vai encaminhar à Secretaria de Estado da Saúde um documento informando o fato e a adoção das medidas para esclarecer o episódio. Nosso sentimento nesse momento é de pesar pelo falecimento da vítima", disse.
Ontem, os médicos decidiram arrastar a paralisação até amanhã, e os profissionais concursados que trabalham na unidade disseram que devem protocolar um documento, até amanhã, anunciado a adesão, aumentando para 38 o número de medicos parados.
Jornal O Norte
