Mais um garimpeiro morre em Junco do Seridó: A dura realidade da exploração do Caulim em nossa cidade




Mais um garimpeiro morreu soterrado nas minas de caulim, no município de Junco do Seridó. Foi nesta sexta-feira (12.11). O garimpeiro Luis Carlos, conhecido na região por 'Tôta', filho de Luis Rufino da Comunidade da Serra de Santana, é mais uma vítima das baquetas do caulim. 

A disputa entre as 'banquetas' de caulim é grande e de alto risco. Banqueta é o nome que se dá ao lugar onde um buraco é cavado e instala-se os equipamentos para a extração. Do lado de cada uma, um pequeno abrigo feito de madeira que guarda os pertences dos trabalhadores. 

Seguindo por estradinhas de terra cobertas por pó branco, é possível avistar várias banquetas espalhadas pelos morros na zona rural de Junco do Seridó. Cada buraco guarda uma equipe. Em média são três. Dois escavam e enchem os baldes no subsolo e um terceiro puxa o material e fica responsável por preparar o almoço. 

Nos dias atuais, em muitas banquetas e galerias a extração agora é feita com um "Chaf" que é como os garimpeiros chamam o guincho que é movido com motor e utiliza cabos de aço e conchas metálicas para retirar o minério da mina e por nas caçambas que o levam até os "Decantamentos" onde o caulim é decantado e processado antes de exportado. (foto abaixo da concha)
A tonelada do produto beneficiado é vendida por uma faixa de preço que vai de R$ 100,00 a R$ 200,00, dependendo do tamanho da malha utilizada. A malha é uma espécie de peneira, quanto maior o seu número (100, 200 e 325, por exemplo), menor a sua trama e, conseqüentemente, mais fino é o grão. Nessa beneficiadora, utiliza-se malhas 100 (caulim destinado a cerâmicas ou para a fabricação de ração de galinha), 200 e 325 (usado na borracha microporosa, como a encontrada no solado de chinelos), como os fabricados pela Alpargatas.

De acordo com informações do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), a média de preço para venda no mercado externo é de US$ 109,34, a tonelada.




                Os Heróis dentro da banqueta do Caulim
Capacitar os trabalhadores, uma vez que as técnicas rudimentares de extração seriam substituídas por máquinas modernos. Isso aumentaria a produção e evitaria riscos à saúde, como a silicose e acidentes com queda de barreiras. 

Um núcleo de produção mineral custa caro para os padrões locais, cerca de R$ 158 mil, se tomarmos como referência o feldspato. Além disso, são necessários mais R$ 359 mil para instalar uma central de beneficiamento. 

A participação do Departamento Nacional de Produção Mineral também é fundamental, haja visto que há concessões de lavras vencidas que devem ser legalizadas para possibilitar o acesso pleno dos trabalhadores. Órgãos de defesa do meio ambiente, como o Ibama, são fundamentais na elaboração de um projeto. Escavar o subsolo ou alterar a superfície sem estudos mais aprofundados pode levar à degradação de um ecossistema ou à contaminação de lençóis freáticos. 

As agências governamentais, que deveriam fomentar essas iniciativas, possuem amarras burocráticas que dificultam o acesso ao dinheiro pela população mais necessitada. A prefeitura ou outra instituição de âmbito federal teriam que entrar como avalistas desse empréstimo. Ao mesmo tempo, órgãos como o Ministério do Trabalho e Emprego têm que continuar com o serviço de acompanhamento, de forma a garantir que os garimpeiros não sejam constrangidos durante o processo. Atravessadores podem explorar economicamente, mas não há diretamente uso de violência ou tolhimento de liberdade. 




                      Um decantamento de caulim

Há sim a exploração do homem sobre o homem, onde muitos conseguem o sustento de suas famílias arriscando diariamente suas vidas em grandes profundidades para extrair o caulim. O pior neste processo é a utilização de minas antigas já bastante utilizadas e com grande risco devido a erosão e a umidade das chuvas e dos lençóis freáticos. 

A exploração do caulim em nossa cidade garante o sustento de muitas famílias, providências devem ser tomadas para garantir cada vez mais a segurança dos garimpeiros, mas não pode ser tirado deles este sustento fundamental para muitos em Junco do Seridó. Muitos inclusive preferem trabalhar de forma clandestina na produção por conta própria porque ganham mais um pouco, do que fichados em algum decantamento recebendo apenas o salário mínimo.

O risco maior para os Heróis que trabalham neste árduo e ariscado serviço é sem dúvida o momento da extração nas banquetas, veja o vídeo abaixo da trilogia que postei no youtube OS HEROIS DO CAULIM e confira:

No acidente de hoje por exemplo há uma semana esta mesma banqueta tinha sido abandonada por outros garimpeiros pois apresentava riscos de desabamento, conforme me reportaram alguns rapazes da Serra de Santana, comunidade onde deu-se a trágica tragédia de hoje cedo.

O corpo de "Tôta", como era carinhosamente chamado pelos amigos ainda encontra-se no IML de Patos e o enterro será amanhã pela manhã no Cemitério de nossa cidade. É bom lembrar que a menos de uma semana, já foi enterrado outro garimperiro da mesma comunidade, também vítima de soterramento naquelas banquetas, por causa principalmente da umidade das últimas chuvas. Com a morte de Tôta, certamente já passamos de mais de 60 garimpeiros nas últimas décadas que perderam a vida em banquetas e galerias, fora os que encontram-se mutilados e muitos sem amparo nenhum da seguridade social, isto é o mais gritante.

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