Antirretroviral é eficaz na prevenção ao HIV entre homens que fazem sexo com homens, publicam jornais do país

Diversos veículos de comunicação noticiaram os resultados da pesquisa Iniciativa Profilaxia Pré-Exposição (iPrEx), divulgados ontem. O estudo mostrou que o remédio antiaids truvada reduziu em 43,8% as chances de homens que fazem sexo com homens se infectarem. Leia a seguir.

Droga antirretroviral é eficaz na prevenção

Pela primeira vez, estudo clínico prova efeito protetor do remédio contra infecção por HIV

DENISE MENCHEN

DO RIO

Pesquisa feita em seis países, Brasil incluído, mostrou que o uso profilático de um remédio antirretroviral reduz o risco de infecção por HIV em até 94,9% em homens que fazem sexo com homens.

É a primeira vez que a eficácia dessa droga na prevenção da aids fica comprovada.

A droga usada foi o Truvada, que inibe a replicação do vírus e é uma das opções para o tratamento de pessoas com HIV. No Brasil, ela está em fase de registro junto à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

O estudo envolveu 2.499 voluntários com alto risco. Metade recebeu o Truvada, e metade, placebo.

Todos foram orientados a tomar um comprimido ao dia. Eles recebiam camisinhas, aconselhamento psicológico e faziam testes de HIV, além de testagem e tratamento de doenças que facilitam a infecção pelo vírus.

Ao fim da pesquisa, cem pessoas tinham contraído o vírus -36 no grupo que recebeu a droga (mas não necessariamente a tomou todo dia) e 64 no grupo-controle.

Conforme aumentou a adesão, aumentou a proteção. O melhor resultado foi entre voluntários que tinham praticado sexo anal passivo desprotegido e tiveram detectada a presença da droga no sangue. O risco de contágio foi 94,9% menor do que entre os que não tinham sinais da droga no sangue.

"É um marco na história da prevenção da aids", diz a infectologista Valdiléa Veloso, da Fiocruz, que conduziu o projeto no Brasil com a USP e a UFRJ. Os dados, diz ela, abrem a possibilidade de que os antirretrovirais sejam incorporado às opções de prevenção. Novos estudos serão necessários para apurar a eficácia em outros grupos.

Outro desafio é garantir a adesão à droga. O coordenador da pesquisa na UFRJ, Mauro Schechter, diz que ela ficou abaixo do esperado.

Efeitos

O funcionário público Fábio Santana, 37, um dos voluntários da pesquisa no Rio, diz que teve a ajuda da avó, para não esquecer de tomar a droga. "Todo o dia, no café da manhã, ela tomava os remédios dela, e eu, o meu."

Santana, que não sabe se recebeu placebo ou remédio, diz não ter sentido efeitos adversos. Outros voluntários tiveram náuseas e elevação dos níveis de creatinina.

O diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, Dirceu Greco, diz que o uso profilático de antirretrovirais pode ser útil em situações em que o uso de preservativo é difícil de ser negociado.

Ele diz, porém, que a pesquisa traz embutido o risco de "medicalizar a prevenção", o que pode ter efeitos danosos a longo prazo, como a criação de resistência aos medicamentos. "As pessoas não podem diminuir o uso do preservativo."

Folha de S.Paulo