Dengue migra para menores de 15 anos e deve se tornar "doença infantil" no Brasil


Casos de dengue registrados no Brasil estão migrando da população adulta para crianças e adolescentes menores de 15 anos. Para especialistas, a mudança é um indício de que a dengue pode se tornar uma "doença infantil" em todo o país --o que ocorreu no sudeste asiático.
Segundo o Ministério da Saúde, até 2007 praticamente não se tinha registro significativo nessa faixa etária. De lá para cá, a média passou para 1 caso em crianças a cada 4 em adultos.
No sudeste asiático, a dengue virou de fato uma "doença infantil". "Estamos caminhando para este modelo", diz Pedro Tauil, infectologista da UnB (Universidade de Brasília).
O deslocamento de casos para a parcela mais jovem da população ocorre porque, quando a pessoa é infectada, fica imune ao vírus que a contaminou, mas continua suscetível aos outros --há quatro tipos de dengue, três em circulação no Brasil.
Com epidemias sucessivas, grande parte da população adulta se contamina diversas vezes, e acaba protegida. As crianças, mais novas e, por isso, com menos contato com a doença, se tornam a parcela mais indefesa da população.
A situação da Ásia difere da do Brasil porque lá epidemias ocorrem há mais de 60 anos, enquanto aqui acontecem há pouco mais de 20.
"Mas esse deslocamento é um dado epidemiológico importante, porque mostra uma provável mudança no padrão de ocorrência de casos da dengue", diz Giovanini Coelho, coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, do Ministério da Saúde.
Na epidemia de 2008 no Rio de Janeiro, a maior parte dos doentes tinha menos de 15 anos, diz o infectologista pediátrico Edimilson Migowski, da UFRJ. "Quando a doença faz parte do dia a dia da cidade, ela acomete a população pediátrica, que ainda não adoeceu."
A ocorrência em crianças está relacionada à reintrodução de sorotipos da doença. Em 2007, esteve ligada à volta da circulação do tipo 2. Neste ano, o tipo 1 voltou com força. Como a última epidemia de dengue 1 ocorreu nos anos 90, quem nasceu depois ficou suscetível.
A reintrodução do tipo 1 é citada pelo ministério como um dos fatores que causaram a epidemia deste ano. Até abril, houve aumento de 80% em relação a igual período de 2009.
O ministério ainda não contabilizou os casos de dengue por faixa etária neste ano. Porém, em cidades como Porto Velho e Campo Grande --duas das mais atingidas pela doença em 2010--, registros em menores de 15 anos são 20% do total. Os dados são das secretarias municipais de Saúde.
Diagnóstico
Não há, segundo o infectologista Benedito Antonio Lopes da Fonseca, da USP Ribeirão, indícios de que a dengue seja mais grave em crianças. O problema maior está no diagnóstico, devido à dificuldade que crianças pode ter para se expressar, segundo Coelho.
A dengue também é motivo de preocupação em menores de um ano. O infectologista Luiz Jacintho, da Unicamp, diz que grande parte das mulheres que estão tendo filhos hoje cresceram num país com dengue, e algumas já foram infectadas.
Quando têm filhos, passam anticorpos para o bebê, que podem ficar na criança até ela ter cerca de um ano. Os filhos ficam protegidas contra aquele sorotipo. Porém, se contraírem outro tipo da doença, podem desenvolver uma forma mais grave, pois o vírus age como numa segunda infecção, quando costuma ser mais violento.