Dados da Polícia revelam que os pontos de venda de droga na Paraíba são abastecidos pelos estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte. Em João Pessoa, o bairro de Mangabeira é onde mais se apreende a droga, principalmente em praças como da Igreja Cristo Rei e Coqueiral.
Essa semana, no Alto do Mateus foram apreendidos 7Kg de crack que estavam enterrados no quintal de uma casa. O crack vem em terceiro lugar no número de quilos apreendidos desde o começo de 2010, perde apenas para cocaína e maconha.
Quem quer sair do vício das drogas encontra ajuda nos chamados Centros de Reabilitação. Os dois principais, Fazenda da Esperança e Cidade Viva são gerenciados por entidades religiosas e oferecem o tratamento gratuitamente.
Tanto na Fazenda da Esperança quanto no Centro de Reabilitação Cidade Viva, mulheres não tem acesso ao tratamento. No entanto, as duas instituições planejam estender o serviço para elas. “O número de meninas e mulheres viciadas vem crescendo muito. Dentro de três meses iremos nos mudar desse terreno e aqui será a unidade feminina. Iremos para um lugar a uns 5Km daqui”, explica Flávio Jesus, um dos diretores da Fazenda. A Cidade Viva planeja um Centro para mulheres e também instalações para idosos e menores de idade.
Espiritualidade e Trabalho
A Fazenda da Esperança é gerenciada pela Igreja Católica, está na Paraíba há quatro anos. No momento atende a 30 homens entre 15 e 75 anos, que tem uma rotina, segundo Flávio Jesus, um dos coordenadores do lugar, baseada na espiritualidade, convivência e trabalho. “Temos uma horta que os ajuda a trabalhar a auto estima e também ajuda na subsistência da própria fazenda”, completou.
Às 6 da manhã eles acordam, às 7h fazem orações e logo depois começam a realizar os serviços de manutenção da fazenda e da casa onde convivem. Tudo é feito por eles, não há caseiro ou empregada e as porteiras ficam sempre abertas. Às 18:30 todos se dirigem à Capela que fica no terreno da fazenda para conversarem sobre o aprendizado daquele dia.
Flávio Jesus explica que para fazer parte da Fazenda é necessário ligar, escrever uma carta de próprio punho demonstrando que quer fazer o tratamento. Ainda é preciso realizar exames como psicológico, de HIV, hepatite e outros. “Eles vem pra cá porque querem, tanto que a porteira fica aberta o tempo todo”, explicou.
Valorização da Família
Após a entrada na Fazenda, a pessoa em tratamento vive os três primeiros meses sem receber qualquer tipo de visita, depois passa a receber a família no segundo domingo de cada mês. Essa estratégia é para que eles comecem a valorizar a família que está do lado de fora. “Aqui eles aprendem a arrumar a própria cama, fazer comida, arrumar a casa. Coisas que lá fora eram a mãe, a irmã ou a esposa que fazia. Aqui eles aprendem a dar valor ao esforço da família”, explicou Flávio Jesus.
Thiago Maris, de 21 anos, é um dos que estão em tratamento na fazenda há 10 meses. Oriundo da cidade de Recife, ele diz que começou seu vício pelas drogas lícitas, álcool e cigarro. “Comecei a beber e fumar aos 14 anos. Achava que era normal”. Ele conta que foi uma pessoa que teve de tudo. “Estudava em escola boa, usava roupa boa, mas eu queria mais, queria ganhar dinheiro fácil pra gastar, sair pra onde eu quisesse”, completou.
Assim, ele começou a traficar no bairro de Casa Amarela, onde morava. Vendia loló e crack, disse que não fazia uso da própria droga, mas resolveu experimentar o crack. “Em três meses eu perdi tudo. O vício vem rápido e comecei a roubar. Entre os 16 e 17 anos fui preso três vezes. A Polícia Civil chegou na minha casa e eu saí correndo. Da primeira vez minha mãe pagou a fiança, as outras duas paguei com suborno”, revelou.
Aos 17 anos, Thiago já tinha esposa e filha. Ele relata que a esposa não fazia uso de drogas e sempre aconselhava a ele sair do vício. “Minha esposa sempre me pediu pra sair dessa vida, muito por causa da nossa filha”. Thiago explica que o cenário da sua vida antes de entrar na Fazenda era caótico: perseguido pela polícia, fazendo uso do crack e também vendendo a droga e devendo para outros traficantes, sendo procurado por eles também.
A mãe sugeriu que ele fizesse o tratamento, mas ele diz ter ido sem intenção de se curar. “Eu vim pensando que ia engordar, melhorar a cabeça e voltar pros meus negócios. Na noite anterior à viagem eu tomei muita droga pra me ‘despedir’. Chamei minha esposa e quebrei o cachimbo na frente dela”. Ele diz que com o tempo “entendeu o propósito de Deus” em sua vida. Diz que era “uma ovelha perdida” e que agora dá mais valor à sua família. “Quando eu tinha dinheiro, era cheio de gente ao meu redor. Quando começou meu vício em crack e perdi tudo, não ficou ninguém ao meu lado, a não ser minha família. Aqui estou aprendendo a valorizar o que elas fizeram por mim”, explica.
Informática e Laboterapia
Cidade Viva – Outro Centro de Reabilitação para quem procura tratamento contra as drogas é o gerido pela Organização Cidade Viva. Coordenado por Saulo Duarte, o centro existe também há quatro anos e atende a 24 homens de 18 a 52 anos de idade.
O Centro trabalha com a metodologia do Alcoólicos Anônimos. Também são usadas no tratamento terapias ocupacionais como mosaico, música e informática. Praticam a laboterapia, que consiste em trabalhar para gerir alimento para o Centro.
Segundo Saulo Duarte, outra terapia usada é a devocional. São os momentos em que aqueles que estão em tratamento usam para fazer suas orações e meditarem. O esporte também entra como terapia. Eles tem aula de jiu-jitsu. “É uma maneira de eles se livrarem do vício. O suor ajuda a gastar energia e ele não ter vontade de fazer uso da droga”, explicou Saulo.
Assim que as pessoas em tratamento entram no Centro, ela passa um mês sem ter contato com familiares, após, ele tem visita presencial da família a cada quinze dias, na semana em que não há visita, ele pode telefonar para a família.
Todos recebem acompanhamento psicológico e o tempo médio de permanência no Centro é de nove meses.
Uso do crack domina
Nos dois centros, a grande maioria das pessoas que estão em tratamento foram por conta do uso do crack. Na Cidade Viva, a droga responde por 75% das entradas no Centro. O crack é um subproduto da cocaína, em formato de pedra, e tem o poder de viciar já na primeira vez em que é usada. Leva o consumidor a um estado de euforia e logo depois depressão e vontade de usar mais para voltar ao estado de “alegria”.