Extração irregular e devastação põem ‘ervas milagrosas’ em risco

Autilização de plantas medicinais é milenar e remonta a pré-história das civilizações humanas, conforme os historiadores. Os homens primitivos tinham nos vegetais a única alternativa na solução dos problemas de saúde. Mas passados milhares de anos e mesmo diante do avanço da medicina, a procura pelos ervas, raízes e troncos de árvores continua atraindo os brasileiros e paraibanos. No entanto, a oferta desses produtos não tem acompanhado o mesmo ritmo e de acordo com o último levantamento realizado ano passado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em todo o Brasil pelo menos 54 espécies são consideradas em risco de extinção.
Algumas delas são nativas da região Nordeste e encontradas no território paraibano. A maior parte, conforme os especialistas, é formada por plantas que possuem tronco e um tempo de regeneração mais extenso, como é o caso do Juazeiro, cujas substâncias são indicadas no combate a doenças nos dentes e gengivas e no tratamento de problemas no estômago; e da quixabeira, usada para a cicatrização de ferimentos. 
Mas algumas ervas como o capim-santo, a artemísia e o alecrim também sofrem com a extração desenfreada. O extrativismo, juntamente com formas equivocadas de retirada dos vegetais da natureza, aliadas à devastação do meio ambiente têm ameaçado as espécies. Apenas em Campina Grande um estudo realizado pelo professor e farmacêutico Ivan Coelho Dantas há dois anos, que se transformou no livro ‘O Raizeiro’, uma espécie de enciclopédia de documentos e informações sobre plantas medicinais de todo o país, identificou 42 raizeiros nas feiras livres do município, demonstrando a dimensão da venda desses produtos.  
O levantamento identificou ainda 201 espécies de plantas com poderes medicinais, comercializadas todos os dias nas ruas da cidade. Na lista do Ibama ainda constam como em risco de sumirem da natureza plantas encontradas na Paraíba como a Romã, o Cumaru, a Umburana, o Jatobá, o Jucá, a Ameixa, o Bom-nome, a Espinheira Santa, o Mororó, a Oiticica, o Pereiro, a Sucupira e o Babatenon. 
Em um desses locais de comercialização, a Feira Central campinense, é fácil encontrar vendedores oferecendo garrafadas, lambedores e pacotes com raízes e ervas medicinais. Os baixos preços e a garantia de resultados positivos atraem os consumidores. O agricultor José Maria Monteiro, 42 anos, e residente na comunidade rural ‘Barriguda’, no município de Gado Bravo, é um exemplo deles. 
Ele contou que até agora nunca precisou ficar um só dia internado em hospitais e sempre cura suas enfermidades com os medicamentos. “Essa semana minha sogra que tem 75 anos estava com uma inflamação na barriga, sentindo fortes dores, e ficou boa depois de tomar uma garrafada aqui. Até hoje eu nunca tomei outro tipo de remédio. Minha cura está no mato mesmo”, comemorou o agricultor, visitando a barraca de dona Tereza Vidal de Andrade, 51 anos, moradora do bairro do Catolé, em Campina Grande, e que há quase quatro décadas vende os produtos no local. 
Com tanta experiência ela contou que já possui na mente todas as recomendações e contra-indicações dos vegetais. Há remédios indicados para inflamações, impotência sexual, mau-olhado, crises respiratórias, problemas urinários e até que ‘prometem a cura do câncer’. No entanto, a vendedora admite que a matéria-prima retirada de algumas plantas está cada vez mais difícil de ser encontrada. 
“Nós compramos ao pessoal dos sítios de cidades como Boqueirão, Queimadas e Aroeiras, que trazem para cá. Aqui eu tenho quixaba, Babatenon, Catuaba, Favela, Urtiga Branca e muitos outros produtos. O Babatenon a gente traz da região de João Pessoa e a Catuaba do Ceará, porque aqui perto não tem não”, registrou a feirante, enfatizando qualquer um dos itens varia entre R$ 1,00 e R$ 2,00. Segundo ela, a cada dia pelo menos 20 clientes adquirem os produtos em sua barraca.