Serrotes Preto, em Várzea-PB, dá exemplo de preservação cultural com o Judas da Semana Santa

Na zona rural de Várzea, mais precisamente na comunidade Serrotes Preto, a cultura popular segue resistindo ao tempo e às transformações da modernidade. Um dos maiores exemplos disso é a tradicional “Malhação do Judas”, prática realizada durante a Semana Santa que reúne moradores em um momento de fé, crítica social e valorização das raízes culturais.

A imagem registrada neste ano retrata o “Testamento de Judas”. O documento, fixado ao boneco ou exposto ao público, apresenta um texto organizado e legível, com linguagem simples e bem-humorada, finalizado com a assinatura simbólica de “Judas”, reforçando o caráter cultural e teatral da tradição.

Todos os anos, moradores se mobilizam para confeccionar o boneco que representa Judas Iscariotes — figura bíblica conhecida por ter traído Jesus Cristo. Produzido com roupas velhas, palha e materiais simples, o boneco é colocado em local visível e se torna o centro das atenções, principalmente durante a leitura do famoso “testamento”.

Neste ano, o testamento apresentado na comunidade Serrotes Preto trouxe o seguinte conteúdo:

Testamento do Srº Juda

Ao dar sumisso a minha vergonhosa vida, resolvi fazer publicamente o meu testamento, legando os meus bens móveis e imóveis reais e irreais aos amigos e conhecidos da Comunidade Serrotes Preto.
Para iniciar deixo os meus sapatos furados para o Srº Presidente da comunidade, o amigo Sávio para que ele possa ir em buscar de melhorias para a nossa comunidade.
O meu suposto par de meias, deixo para o amigo Adriano para ele não pegar frieira, nas águas do Açude.
A minha esfarrapada calça para o amigo Xuxu, para ele pastorar o gado.
O meu cinto de cordas deixo para o amigo Julião, pois o mesmo está emagrecendo.
A minha cueca deixo o amigo Gugu, pois a sua mãe Terezinha disse que as deles tavam todas furadas.
A minha camisa deixo para o amigo Luiz Poeta para que ele possa se apresentar no Sarau.
Meu boné deixo para o amigo Joaci para ele poder cuidar do seu pomar.
O meu palito deixo para o meu amigo Edson das Meninas para ver se ele arruma um casamento.
E o dinheiro que eu tinha, paguei os advogados, o Drº Júnior de Maze e o Drº Thiago de Humberto, para que eles pudessem fazer e repassar os meus bens aos meus amigos. Como minha eterna paixão Mirian Rocha, não me quis, então tive que deixar os meus bens para os meus amigos.
E peço ao amigo Jefte News que ele possa fazer a matéria, falando que a nossa comunidade, regata todas as tradições do nosso município.

Sem chorar, mas chorando, do mundo me despeço sonhando.

Assinado JUDAS.

O conteúdo, marcado por ironia e criatividade, reflete o cotidiano da comunidade e reforça o espírito coletivo da tradição. Cada “herança” citada carrega não apenas humor, mas também referências diretas às pessoas e à realidade local, tornando o momento ainda mais especial para quem participa.

No interior do Nordeste, o “Testamento de Judas” é uma das partes mais aguardadas da Semana Santa. Ele funciona como uma verdadeira crônica popular, onde críticas sociais, brincadeiras e costumes se misturam, sempre mantendo o respeito e a identidade cultural de cada localidade.

A malhação ou queima do Judas, geralmente realizada no Sábado de Aleluia, simboliza a punição pela traição, mas também representa um momento coletivo de expressão cultural. Com raízes na tradição ibérica trazida pelos portugueses, o costume foi adaptado ao longo dos anos e hoje é uma das manifestações mais autênticas do Nordeste brasileiro.

Na comunidade Serrotes Preto, essa tradição segue viva graças ao empenho dos moradores, que fazem questão de manter acesa essa chama cultural. Mais do que um ritual, o “Judas” é a representação de um povo que valoriza suas origens, cultiva o humor e fortalece os laços comunitários.

Em tempos em que muitas tradições acabam se perdendo, iniciativas como essa mostram que o interior nordestino continua sendo um verdadeiro guardião da cultura popular. O “Judas” da Semana Santa em Serrotes Preto é, acima de tudo, a prova de que fé, cultura e comunidade caminham juntas, mantendo viva a história e a identidade de um povo.