“Meu amor, não fique assim, não foi sua a minha culpa. Por favor, não mude de cor, a gente pode tentar outra vez. A noite é uma criança, um pouco de amor não cansa. É que eu sou frígida”. Quem lê os versos de “Betty Frígida”, sucesso nos anos 80 com o jargão “Calma, Betty”, da banda de rock Blitz, não tem a dimensão de que 43% das paraibanas entre 18 e 70 anos, o equivalente a 538 mil mulheres, sofrem de algum problema sexual, como falta de desejo, excitação ou orgasmo. Dessas, 26%, aproximadamente 325 mil, possuem o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), distúrbio antes conhecido como “frigidez”, que se manifesta com maior frequência a partir dos 40.
As estimativas são fruto da maior pesquisa nacional empreendida na área, realizada pela pesquisadora Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Os números da amostra, porém, podem atingir proporções ainda maiores, tendo em vista que o tabu e a piada que nunca deixaram de envolver o tema têm calado muitas vozes ao longo do tempo. Ainda assim, mesmo para as que resolvem falar e procurar ajuda médica, o problema não é menor.
Apesar de a vida sexual ser uma das condições avaliadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para definir a qualidade de vida da população, a rede pública de saúde não oferece nenhum dos três diferentes tipos de medicamentos existentes e que podem devolver a libido à paciente, restringindo sua atuação aos repositores hormonais, no caso de haver déficit de hormônios. Já nas farmácias, os “estimulantes femininos” são caros, chegando até R$ 130, despesa incompatível com a realidade da maioria, que, por outro lado, desconhece a existência desses produtos.
O fato é que, se não tratado, o TDSH, que é causado majoritariamente por distúrbios psicológicos, pode agravar ainda mais esses sintomas e comprometer de forma definitiva a vida pessoal dessas mulheres, levando à destruição de casamentos e de famílias, além de depressões graves e, muitas vezes, de difícil tratamento.
A psicóloga Karina Simões, especialista em Sexualidade Humana pela USP, conta que quadros com base multifatorial, são bastante comuns. Ela explica que, como as mulheres hoje têm assumido cada vez mais funções, mas têm ainda que conviver com o tradicionalismo da instituição familiar, são recorrentes casos de estresse, estafa e alterações hormonais, fatores que estão diretamente relacionados ao aparecimento do TDSH.
Karina ressalta, contudo, que experiências negativas, traumas e até mesmo uma má educação sexual na infância também são causas determinantes. Apesar de grave, a especialista aponta que o distúrbio, sendo de ordem psicológica, é efetivamente tratável e pode devolver a vida normal a essas mulheres em menos de um ano.
Sexo é tabu
Falar de sexo ainda é um tabu entre as mulheres. Embora as disfunções sexuais atinjam mais de meio milhão de paraibanas no Estado, conforme indicam estimativas realizadas a partir da pesquisa empreendida pela estudiosa da Universidade de São Paulo (USP), Carmita Abdo, o assunto ainda é ignorado por muitas, o que atrapalha, de forma decisiva, a resolução dos conflitos, já que muitas sequer conhecem os problemas ou procuram as soluções, seja por medo, vergonha ou desconhecimento.
Para o chefe do serviço de ginecologia do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW), Eduardo Sérgio Sousa, que também é professor da Universidade Federal da Paraíba, embora as mulheres tenham avançado em muitos aspectos da vida cotidiana, inclusive disputando espaços importantes com os homens, a sexualidade continua a ser um assunto bastante evitado, inclusive durante consultas médicas.
“Num primeiro momento da consulta, elas não se referem em nenhum momento sobre qualquer disfunção sexual. Fazem mil perguntas sobre assuntos diversos, até que, quando já estão perto de ir embora, muitas delas até já se levantando das cadeiras, mencionam o problema, mas, ainda assim, o fazem com bastante vergonha. ‘Ah, doutor, esqueci de perguntar uma coisa’. Essa postura no consultório reflete a postura da sociedade”, conta ele.
Por esse motivo, segundo a pesquisadora Carmita Abdo, os casos de disfunção sexual são sempre subnotificados. “As mulheres têm dificuldade de se abrir com o profissional por se sentirem constrangidas de debater a questão. Por incrível que pareça, apesar de todos os avanços alcançados, muitas não imaginam que a mulher possa ter desejo. É um preconceito que está cristalizado, de que só o homem pode ter prazer e falar sobre sexo”, lamenta.
Memória
Cerca de 70% dos casos de Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), em que a mulher não tem libido e, por consequência, não se excita com as carícias do parceiro, ocorre com mulheres acima dos 40 anos. Nesse sentido, explica a pesquisadora Carmita Abdo, é fundamental que seja investigada possibilidade de essa paciente ter alguma doença que a leve à falta de resposta sexual.
O presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Gerson Pereira Lopes, explica que, não estando equilibrada a saúde da mulher, o desejo naturalmente pode sumir. “Alguém que está com câncer, seja pela doença ou pelo aspecto psicológico, vai perder o desejo sexual. A mesma coisa com alguém que sofre de alguma doença no coração, no pulmão ou mesmo a diabetes, que, junto com a hipertensão, o colesterol alto e a deficiência de hormônios, são as mais comuns”, explica.
Porém, o consumo de remédios antidepressivos, contra a hipertensão e contra a ansiedade também estão entre as causas para o surgimento do transtorno. “Esses medicamentos provocam naturalmente uma baixa da libido”, lembra o presidente.
Curiosidade
O termo “frigidez”, que corresponde ao desinteresse pelo sexo e à falta de excitação quando de sua prática, deixou de ser utilizado para se referir ao Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, devido à grande carga pejorativa que envolvia a expressão. “Isso muitas vezes atrapalhava a resolução do problema”, enfatiza o presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, Gerson Pereira Lopes.
Disfunções
As disfunções sexuais são o conjunto de distúrbios relacionados ao sexo. Na fase do desejo e da excitação, é conhecido como Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), também conhecido como inapetência. Quando a paciente não consegue atingir o orgasmo, o problema chama-se Anorgasmia. Já quando a mulher não só não tem desejo sexual, mas também sente repugnância e nojo de qualquer ato relacionado ao sexo, chama-se Distúrbio da Aversão Sexual, que tanto pode ser inato, quanto adquirido. Existem ainda as pessoas conhecidas como assexuadas: são aquelas que não têm libido e não atribuem nenhuma importância ao ato sexual.
“Minha vida foi tolhida pelo pé”
Quem perdeu completamente o desejo sexual e convive com uma tristeza diária por esse e outros motivos é a dona de casa Francisca, cujo nome real não será mencionado, para manter sua privacidade. Ela estava na última quinta-feira no Hospital Universitário Lauro Wanderley, na Capital, acompanhando uma parente. Prestes a completar 65 anos, ela conta que, há 26, é viúva. Depois da perda do esposo, tentou refazer a vida com outro relacionamento, mas que não deu certo, porque, segundo ela, já tinha “filhos crescidos”. O fato mais grave, contudo, é que, desde 1992, após uma hérnia de disco, sente dores por todo o corpo e mal consegue andar ou, menos que isso, ter uma vida normal.
“Eu vivo com dores constantemente. Essa doença é tão presente que afetou toda a minha vida. Não tenho mais desejos de nenhum tipo. Até tentei encontrar uma pessoa, mas, como tenho filhos com mais de 40 anos, nunca consegui. Se fossem pequenos, até dava para conciliar, mas não tem como. Eu nunca vou preferir um homem aos meus filhos”, explica ela. Ainda assim, ela acrescenta que nunca se conformou com o rumo que sua vida tomou. “Eu não me aceito desse jeito. Eu era uma pessoa muito ativa com meu marido. Fazíamos de tudo, nos amávamos, éramos muito felizes. Minha vida foi tolhida pelo pé”, desabafa.
Problemas psicológicos
No caso de mulheres jovens, entretanto, a pesquisadora Carmita Abdo ressalta que geralmente o transtorno vai estar associado a problemas psicológicos. “Até porque elas são saudáveis”, destaca. Segundo a psicóloga Karina Simões, especialista em Sexualidade Humana pela Universidade de São Paulo (USP), as causas mais comuns para o desenvolvimento do problema entre pessoas mais novas devem-se a traumas, à falta de educação sexual e a experiências negativas presenciadas.
“Um exemplo muito comum é de uma criança de três ou quatro anos que vê os pais tendo relações. Como ela não tem maturidade para entender isso, pode acabar virando um trauma, porque ela não vai conversar sobre o assunto e vai levar essa lembrança para a vida toda, em forma de um bloqueio. Trauma não é só abuso sexual”, conta. Além disso, enfatiza Karina, o estresse alto, uma carga horária incompatível que provoque um cansaço intenso, má-alimentação, problemas conjugais e até mesmo uma pós-gravidez podem contribuir diretamente para o aparecimento do problema.
“Isso porque o foco dessas mulheres vai se voltar para o filho, para o trabalho e para os problemas em geral. O corpo passa a trabalhar mais e existe uma alteração hormonal que acaba refletindo em alguma área. Se for estritamente orgânico, o ginecologista receita um medicamento, mas, caso não seja, isso tem que ser trabalhado com acompanhamento psicológico”, disse.
Mulheres desconhecem estimulantes
Embora só devam ser usadas sob prescrição médica, o mercado dispõe hoje de duas substâncias que funcionam como “estimulantes” sexuais para mulheres: a bupropiona, presente em medicamentos como Wellbutrin, Bup e Zetron, além do genérico Cloridrato de Bupropiona; e a testosterona, que não é vendida avulsa, tendo que ser produzida em farmácias de manipulação. Além destas opções, existe ainda o Androsten, um fitoterápico à base da planta “Tribulus terrestris”, que funciona aos moldes do Viagra masculino, aumentando a libido tanto de homens, quanto de mulheres. No entanto, são poucas as que compram porque não conhecem os remédios, têm vergonha ou medo.
Apesar de constituírem saídas a problemas como o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH), nenhum desses medicamentos é oferecido pela rede pública de saúde e, por outro lado, são caros, variando de R$ 58, para o Androsten, a R$ 130, para uma caixa do genérico com 60 comprimidos. Já as contendo 30 comprimidos variam entre R$ 66 e R$ 94, com o agravante de que muitos deles devem ser consumidos três vezes ao dia, o que significa que, usado continuamente, não duram mais que 10 dias.
A Gerência de Medicamentos Farmacêuticos (Gemaf) da Secretaria de Saúde de João Pessoa (SMS) informou que, no caso do Androsten, não é oferecido à população por se tratar de um fitoterápico que não consta nas portarias emitidas pelo Ministério da Saúde (MS). “O que oferecemos à população são remédios para reposição hormonal na menopausa, como os estrógenos conjugados em cremes e em comprimidos”, explicou a farmacêutica da Gemaf Darlle Sarmento. A farmacêutica adiantou, porém, que a SMS deverá inaugurar, em abril, um Centro de Práticas Integrativas e Complementares, que terá foco, entre outros aspectos, em medicamentos fitoterápicos.
Já a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que nenhum medicamento para reposição hormonal é oferecido pelo Centro Especializado de Dispensação de Medicamentos Excepcionais (Cedmex), bem como o Androsten. A SES explicou ainda, através da assessoria de imprensa, que também não há requisição de nenhum desses remédios em andamento na Justiça.
Uso indiscriminado prejudica
O uso indiscriminado dos medicamentos para tratar o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) pode causar sérios danos à saúde da mulher, por isso, recomendam especialistas, a administração desses remédios deve ser feita apenas sob prescrição médica.
De acordo com o chefe do serviço de ginecologia do Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU) da UFPB, Eduardo Sérgio Sousa, o uso de doses elevadas de testosterona, por exemplo, podem acarretar o engrossamento da voz da mulher e ao aumento do clitóris. “Também não deve tomar doses de testosterona mulheres com colesterol alto ou que tenham problemas hepáticos ou risco de câncer, pois o quadro pode se agravar”, complementa a pesquisadora da USP, Carmita Abdo. Com relação à bupropiona, ela explica que o uso é contraindicado para mulheres que sofrem de distúrbios como bulimia ou anorexia. “Outra contraindicação é para mulheres muito ansiosas ou que tenham insônia, pois elas podem desenvolver um quadro de agitação intensa. É por isso que todo médico, antes de administrar qualquer uma das duas substâncias, vai fazer um interrogatório minucioso”, afirmou.
Hoje, o único medicamento que pode ser encontrado facilmente sem qualquer restrição é o Androsten. Para os demais, é exigida nas farmácias uma receita branca dupla, por se tratar de um “medicamento controlado”, conforme apontam os atendentes de todas as drogarias pesquisadas em João Pessoa.
“É possível viver sem sexo”
A pesquisadora Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), explica que, embora o Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) seja um problema que afeta a vida de muitas mulheres, é possível que o indivíduo viva feliz sem sexo.
“Nossa pesquisa, chamada de ‘Mosaico Brasil’, mostra que 7,5% das mulheres no Brasil não estão incomodadas com a falta de sexo. Do ponto de vista médico, essa situação pode sim ser saudável, desde que a pessoa não sinta nenhuma necessidade. O que é prejudicial é quando a mulher sente vontade e passa a se privar, evitando o contato ou o ato propriamente dito por razões de outra natureza. Aí sim elas podem ficar perturbadas”, explica.
A psicóloga Karina Simões, especialista em Sexualidade Humana, enfatiza também que essa falta só se torna um problema quando é persistente a falta de desejo e isso começa a comprometer a vida do indivíduo. “Mas, também deve ser feito o diagnóstico para evitar confundir o TDSH com a aversão sexual, que é um distúrbio diferente”, lembra.
Diálogo
É consensual entre médicos e especialistas que o diálogo é a melhor alternativa para iniciar o tratamento de disfunções relativas ao sexo. “É preciso quebrar essa cultura errada da sexualidade, de que o prazer está restrito aos homens ou de que é vergonhoso falar sobre sexo”, esclarece a psicóloga Karina Simões. “Embora seja notável que a mulher tem rompido barreiras, inclusive no tocante à sexualidade, esse avanço ainda é desproporcional às demais conquistas femininas”, lamenta o chefe do serviço de ginecologia do HULW, Eduardo Sérgio Sousa. Ainda assim, a pesquisadora da USP, Carmita Abdo, lembra que, apesar de a passos lentos, os progressos devem continuar, sem deixar de lembrar da importância de se ter uma vida saudável, para prevenir a ocorrência de problemas sexuais futuros. “A dica é evitar o sedentarismo, dietas hipercalóricas, bebidas em excesso, fumar, evitar drogas, além de reservar um tempo para si, para diminuir o estresse, que é responsável pelo desenvolvimento da maioria dos quadros ansiosos ou depressivos”, finaliza.